
Viajar é uma das melhores formas de passar o tempo livre. Conhecer novos lugares, culturas e pessoas, visitar diferentes paisagens do mundo e experimentar novos sabores são só alguns exemplos do que uma viagem pode nos oferecer.
Mas, como toda atividade humana, o turismo também pode trazer impactos negativos tanto para o meio-ambiente quanto para a população e, até, para a cultura local. É por isso que surgiu o conceito de turismo sustentável.
“O turismo sustentável é uma premissa que levamos em conta quando estamos planejando uma viagem, seja como turista, operador de turismo ou empreendedor da área”, diz Luciana Sagi, pesquisadora e consultora de turismo sustentável para instituições públicas e privadas. “É pensar em como reduzir o máximo possível os impactos do turismo, levando em conta os pilares econômico, social e ambiental.”
A ideia desse conceito está baseada na preservação e conservação. Mas não só do meio-ambiente: aqui, entram também a cultura, as pessoas e as atividades econômicas locais. “Existe a preocupação de garantir que os territórios fiquem o mais íntegros possível, respeitando a realidade dos locais para garantir a sua resiliência e trazendo os impactos positivos do turismo”, explica Luciana.
A importância do turismo sustentável
Colocar em prática o turismo sustentável é essencial porque, quando feito de forma irrefletida, essa atividade pode ter impactos negativos profundos.
Comunidades nativas, por exemplo, podem deixar de lado práticas tradicionais, como artesanato e formas de subsistência milenares, para servir de mão de obra – muitas vezes mais barata – para atividades turísticas.
O custo de vida também pode subir muito para as comunidades, principalmente quando imóveis são comprados para serem alugados por turistas, a preços muito maiores do que os praticados anteriormente, inflacionando as condições de vida dos locais.
Além disso, o excesso de pessoas em um local que não tem estrutura também acarreta problemas, como aumento na geração de resíduos e desabastecimento, especialmente de água e energia – fora o aumento no trânsito e na poluição.
Outro fator são os danos diretos ao meio-ambiente. Tanto que, globalmente, práticas relacionadas a turismo emitem cerca de 5% de todo o carbono na atmosfera, e a expectativa é que esse número cresça ainda mais até 2030, de acordo com dados divulgados em 2019 pela Organização Mundial do Turismo, da ONU. Além disso, quando não é feito de maneira consciente – especialmente em destinos com atrações naturais – o turismo de massa pode ainda causar impactos negativos sobre o solo, a água e a biodiversidade, como destaca a Unep.
Os pilares do turismo sustentável
A prática do turismo sustentável se fundamenta em três pilares:
1. Econômico
Usar de forma sustentável os recursos disponíveis, apoiando negócios locais, promovendo a inclusão no mercado de trabalho, incentivando práticas tradicionais das comunidades e estimulando a economia local.
2. Social
Incentivar a participação da população local e garantir que as atividades econômicas relacionadas ao turismo sirvam aos seus interesses, de forma que elas não sejam prejudicadas nem exploradas e tenham condições justas de trabalho. Além disso, neste pilar também está a preservação do patrimônio histórico e cultural.
3. Ambiental
Identificar e minimizar os possíveis impactos do turismo naquele ecossistema, conservando os recursos naturais e protegendo a biodiversidade. Isso inclui mecanismos que vão passam por regras de visitação e fiscalização e por investimentos em infraestrutura, como a gestão responsável de resíduos.
Esses pilares contribuem para tornar o turismo possível a longo prazo, preservando os locais turísticos para que possam continuar a serem visitados no futuro. Afinal, quando um destino se degrada, acaba deixando de atrair o interesse das pessoas.
Colocar isso em prática é um desafio e exige um esforço coletivo de órgãos do governo, empresas do setor (como hotéis, restaurantes e agências de turismo), profissionais (como guias de turismo) e viajantes. “Na base de tudo está uma boa governança que garanta políticas para o turismo sustentável”, ressalta Luciana.
Uma das atitudes comuns na aplicação do turismo sustentável é limitar o número de visitantes em determinadas cidades e locais. “São feitos estudos para identificar a capacidade de carga daquela localidade e monitoramentos do número de visitantes”, diz Luciana. “Em alguns casos, existem também taxas para controlar o fluxo e financiar a gestão do impacto dessa população flutuante, que causa desafios importantes de infraestrutura pública.”
Um exemplo recente vem da cidade italiana de Veneza, que passou a cobrar uma taxa que varia de 1 a 5 euros para visitantes em suas primeiras 5 noites consecutivas na cidade. Essa é uma tentativa de diminuir o turismo de massa, que acaba prejudicando a vida da população local e o meio ambiente – para se ter uma ideia, a cidade possui aproximadamente 50 mil residentes fixos, mas recebeu cerca de 2 milhões de turistas em 2023 e metade deles passou apenas um dia no local.
Exemplos de iniciativas e destinos que se destacam pelo turismo sustentável
Existem diversas instituições que premiam e selecionam destinos mais sustentáveis ao redor do planeta.
A organização Green Destinations, por exemplo, elege anualmente as iniciativas turísticas mais sustentáveis do mundo. Em sua lista de 2024, a organização selecionou diferentes projetos em locais como Fernando de Noronha, no Brasil); Aspen, nos Estados Unidos; e Sintra, em Portugal.
Já o índice feito pelo GDSM (Globall Destination Sustainability Movement) classifica os 40 melhores destinos de regiões como América do Norte, Ásia e Europa. Em 2024, os três primeiros lugares foram para Helsinki, na Finlândia; Gotemburgo, na Suécia; e Copenhagen, na Dinamarca.
No Brasil, a Braztoa (Associação Brasileira das Operadoras de Turismo) publica um prêmio anual com a seleção de iniciativas sustentáveis no país. Em 2024, houve destaques para Ekôa Park, no Paraná; Associação Peixe-Boi, em Alagoas; e Povoado Mar da Hora, no Maranhão.

Falando em destinos sustentáveis, vale conhecer também o Parque das Neblinas, localizado em Mogi das Cruzes e Bertioga (São Paulo). Gerido pelo Instituto Ecofuturo, da Suzano, o local tem mais de 7 mil hectares de Mata Atlântica regenerada, e une preservação, ecoturismo e educação ambiental. O Parque tem, ainda, um impacto positivo para a comunidade local, pois capacita moradores da região para que possam trabalhar – e gerar renda – com o turismo sustentável, seja como funcionários da instituição ou prestadores de serviço.
Existe diferença entre turismo sustentável e turismo verde?
Ambos são maneiras mais conscientes de viajar, mas há diferenças. O turismo sustentável é amplo, preocupando-se com os aspectos social, econômico e ambiental das práticas relacionadas ao turismo.
Já o turismo verde tem enfoque na conservação e preservação ambiental. Isso quer dizer que o turismo verde é uma parte do turismo sustentável - parte essencial, mas que não dá conta de todos os pilares.
Como fazer uma viagem mais sustentável?
Há hábitos simples que podemos adotar para ter uma viagem que cuide melhor do meio ambiente e das comunidades locais. Confira algumas dicas.
Visite o que está perto de você
Além dos destinos mais populares e do sonho de conhecer outros países, busque variar seus itinerários. Dar prioridade a locais mais próximos da sua casa ajuda a diminuir a emissão de combustíveis fósseis durante a viagem. Afinal, existem muitos lugares para conhecer – e a maior parte das pessoas não faz isso. Segundo um dado citado no relatório The State of Tourism and Hospitality, divulgado em 2024 pela consultoria Mckinsey, 80% dos viajantes visitam apenas 10% de todos os destinos turísticos do mundo.
Priorize as comunidades locais
Busque por passeios, hospedagens e comércios geridos pela população do lugar que você está visitando – melhor ainda se valorizarem a cultura local e o cuidado com o meio ambiente.
Respeite as regras de visitação
É fundamental prestar atenção nas recomendações do destino que você visita. Em um parque natural, por exemplo, é comum proibições sobre tocar em plantas e animais e se distanciar de trilhas. Regras assim existem para preservar a segurança de quem está passeando e para cuidar da natureza.
Não leve “lembrancinhas naturais” e cuide do lixo
Retirar uma concha, uma flor ou um animal de um destino natural pode causar desequilíbrio, então, o melhor é tirar apenas fotografias. Além disso, preste atenção no lixo gerado ao longo do passeio: guarde os resíduos até encontrar um local adequado para o descarte.
Conclusão: o turismo sustentável está ao alcance de todas as pessoas
Adotar um estilo de vida mais sustentável passa por fazer escolhas conscientes em todos os aspectos – incluindo os momentos de lazer.
Como explicamos neste texto, o turismo sustentável pede atitudes simples, como a maior conscientização sobre o impacto – positivo ou negativo – que cada um de nós causa quando viaja.
Que tal aproveitar seu interesse no assunto para se aprofundar no tema? Uma boa fonte de informações é o Código Mundial de Ética de Turismo, elaborado pela Organização Mundial do Turismo, que traz recomendações para o turista ter uma prática mais sustentável.